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O bode expiatório da nossa política

14 de Maio de 2014, 12:34

No encerramento da Reunião de Quadros do Partido Frelimo, o presidente deste partido e, simultaneamente, da República, Armando Guebuza, deu enfoque especial no seu discurso à figura do “bode expiatório”.

Achei o discurso bastante oportuno e certamente esteve direccionado a muitos “de dentro como os de fora”, como um dia teria dito Margarida Talapa num dos seus discursos na Assembleia da República.

Digo isto porque, nos últimos anos, quer ao nível do partido Frelimo, assim como do governo, muitos dificilmente assumiam os seus erros e procuravam imputá-los aos outros, no caso concreto os tais “bodes expiatórios”, ou seja, facilmente atribui-se culpa a quem não pode defender-se em sede própria, o que deixa quem deve assumir a culpa, na maior parte das vezes que é o dirigente, na sombra da bananeira, não permitindo, desse modo, que outras entidades trabalhem na solução dos problemas que levaram ao fracasso.

Para ser mais claro na minha análise, vou socorrer-me de alguns exemplos. O primeiro são as manifestações populares que, por duas ocasiões, fustigaram a capital do país, devido ao alto custo de vida. Na altura, a imprensa foi tida como “bode expiatório”, havendo alguns órgãos de comunicação social que sofreram sanções, acusadas de ter incitado as manifestações, o que claramente não constitui a verdade. A figura do bode expiatório fez o governo dormir um sono profundo diante de vários sinais que indicavam que o povo havia de se rebelar devido ao alto custo de vida, mas a convicção de que estavam a governar bem não despertou os governantes para a realidade que o país estava a viver.

Outro exemplo é das eleições intercalares, em que a Frelimo perdeu o município de Quelimane para o MDM. mais uma vez, a imprensa foi tida como bode expiatório, que alegadamente favoreceu a campanha da oposição, quando, na verdade, o partido Frelimo tinha feito uma escolha errada de candidato e teve uma má estratégia de campanha eleitoral. E o resultado foi a derrota.

Igual situação verificou-se nas eleições autárquicas, nalguns municípios em que a Frelimo não tinha candidatos à altura dos seus adversários e os seus membros não estavam suficientemente empenhados em garantir a vitória dos seus candidatos. mais uma vez, a culpa recaiu sobre a imprensa e não sobre o mau trabalho dos órgãos locais do partido.

Daí que o discurso do presidente da Frelimo parece assentar muito bem nas lideranças subalternas do partido, chamando-as a trabalharem mais e envolvendo mais os seus membros na causa imediata do partido, que é ganhar eleições e não buscar nos outros a justificação para o mau trabalho que fazem. Espero sinceramente que a mensagem tenha mesmo chegado aos destinatários.

Por outro lado, o discurso de bode expiatório pareceu também mea culpa do presidente, daí que vai a minha vénia e admiração ao assumir este como um problema grave dentro do partido. É que, durante os últimos anos, vimos o presidente culpar os outros pelas críticas à sua governação. Apóstolos da desgraça, tagarelas, não patriotas, mão externa, foram os vários termos usados para (des)qualificar ou rotular todos aqueles que na verdade procuravam ajudar o presidente na sua governação, apontando os erros que o governo ia cometendo, esquecendo-se que só erra quem trabalha. Aliás, quando alguém aponta os nossos erros, está indirectamente a dizer que estamos a trabalhar, mas precisamos de melhorar neste e naquele aspecto. Aliás, um governo que não é criticado significa que é praticamente inexistente e inútil.

O maior controlo dos órgãos de comunicação social públicos e o surgimento de G40 são outros exemplos da existência e da importância do bode expiatório na nossa política. O governo e o partido Frelimo não precisam de fazer o controlo de nada nem de ninguém, pois é um esforço desnecessário na sociedade actual, em que a telefonia móvel e as redes sociais estão a alastrar-se a olhos vistos e a substituir os media tradicionais. Para alguém saber o que aconteceu hoje no país e no mundo ou emitir a sua opinião sobre um determinado assunto já não é necessário ler jornais, ver televisão ou escutar rádio, basta ter o seu celular na mão que tem o mundo aos seus pés. Basta recordar que os regimes dos poderosíssimos Hosni Mubarak, Muamar Khadaffi, Ben Ali, Abdulah Salem foram depostos a partir de manifestações convocadas a partir das redes sociais e telemóveis.

Agora, ridicularizar supostos intelectuais em antena nacional e despojar-lhes do saber é descredibilizar o esforço titânico das universidades e do Ministério da Educação, porque todo aquele que ouve e vê aqueles senhores doutores do famoso G40 a falarem na rádio ou na televisão acha que não vale a pena levar os seus filhos à escola, para, depois, terem aquele tipo de reflexões que o próprio governo contraria dia-após-dia.

O G40, no lugar de promover o governo, está a despromover o ensino moçambicano e os esforços feitos pelo governo nos últimos quase quarenta anos. Tudo isto por conta do famigerado bode expiatório, o Xiconhoca dos nossos tempos.

Bem haja presidente Guebuza e que Deus abençoe Moçambique!

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